Março - 1987
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Não kardequize o universo, universalize Kardec
Afinal, quem é espírita?
Não nos referimos ao "espiritazinho", "espiritóide" ou "metido-a-espírita". Também não nos referimos ao ser humano perfeito, porque este não se encontra mais no estado de encarnado.
Espírita seria aquele que procura, continuamente, vivenciar o Espiritismo? Eis aí uma boa conceituação, distante das conveniências do "ninguém-é-perfeito" - véu que encobre o comodismo daqueles que, no trem da história, preferem viajar nos vagões.
Estabelecida, então, a distinção entre espíritas e aspirantes, ou curiosos e livre-pensadores, podemos fazer algumas considerações.
Em primeiro lugar, o espírita deve conhecer Espiritismo, a Doutrina dos Espíritos. Do contrário, seria o mesmo que o cidadão se dizer petista sem nunca haver lido o programa do partido. Seria um petista carnavalesco, ou um espírita carnavalesco - entra no bloco sem conhecer o enredo do samba.
E, evidentemente, o conhecimento do Espiritismo deve ser buscado nas obras básicas, escritas por Allan Kardec e Espíritos: O Livros dos Espíritos, O Livros dos Médiuns, A Gênese, Céu e Inferno, Obras Póstumas, O Evangelho segundo o Espiritismo e, ainda, O que é Espiritismo e Iniciação Espírita. É evidente, também, que o Espiritismo não se reduz apenas a essas obras. Disse Antônio Grimm que "Espiritismo não é só Kardec", num sentido de que Kardec lançou os princípios básicos doutrinários, mas depois dele já veio muita gente boa que escreveu coisa ótima, ampliando o horizonte espiritista. Exemplos? Ora: William Crookes, Charles Richet, Camille Flammarion, César Lombroso, Léon Denis, Pietro Ubaldi, Bezerra de Meneses, Herculano Pires, etc. e etc. E há outros que, mesmo não sendo espíritas explícitos, deram largos passos na Ciência e na Filosofia - dando carona pro Espiritismo (o próprio Kardec dissera que Espiritismo caminha junto com a Ciência). São vários: Freud, Piaget, Lévi-Strauss, Bachelard, Gandhi, Einstein, Barthes, Sartre, enfim, todos os que, após Kardec, contribuíram para a dilatação do volume social do conhecimento humano.
Contrariamente ao que estão fazendo alguns espíritas, não devemos kardequizar o Universo, mas Universalizar Kardec.
Depois, é importantíssimo que as pessoas leiam as obras - de Espiritismo explícito ou não - com óculos do tempo presente, ou seja, nesse momento, com óculos de 1987. Sim, porque O Livro dos Espíritas é de 1857, tem mais de cem anos. Logo, sua linguagem e seu conteúdo estão condicionados pelas circunstâncias de sua época - e tem mais: as traduções brasileiras datam do tempo do Império, sendo que as mais recentes já tem mais de trinta anos. Parafraseando Samira de Mesquita (O Enredo), a obra testemunha seu tempo. Aí, quem for ler livro espírita - principalmente os romances - deve fazê-lo com muito senso crítico, pois se levar a escritura ao pé-da-letra terá conclusões deslocadas do tempo e do espaço. Não dá pra esquecer que depois de Kardec - bem mais de 50 anos depois - é que Einstein disse que a coisa toda era muito relativa.
Portanto, ao lermos um livro espírita, mudemos o que deve ser mudado. Há certos livros por aí, que se dizem espíritas, sensacionais como ficção científica, mas péssimos para o Espiritismo. Muitos deles, escritos ou psicografados há mais de trinta anos, abusam de tal forma dos símbolos e da linguagem figurada que, para o leitor menos avisado, causam medo, pavor, ou então conciliações angelicais. São os tais que dizem ser a reencarnação a explicação de tudo ou que a sexualidade não é pecado, mas quem se libertar da tentações da carne cairá no abismo (sorte de quem é vegetariano!).
É preciso que os espíritas conheçam o Espiritismo e compreendam que ele está presente em cada manifestação humana. Mas que deixem um pouco de se emocionar até às lágrimas ante os símbolos celestiais de alguns romances de seus comportamentos e da mentalidade social.
Numa cidade perto de Curitiba, Araucária, já tem crianças nascendo sem cérebro. Mas não é por problema reencarnatório, não. É porque Araucária é conhecida como a "cubatão paranaense". A questão é do presente, não do passado. Portanto, quem só olha pras nuvens, percebe que pisou num formigueiro quando já é tarde de mais.
Documentos SBEE
Ano III - Número 4 Março 1987
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