Junho - 1987
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Espiritismo é Religião, Sim Senhor!

Entre perplexidade e estupefação vimos testemunhando a imprensa espírita brasileira insistindo em se distanciar de uma uniformidade doutrinária.

Evidentemente, todo o debate em torno da Doutrina dos Espíritos é salutar. Não há como fazer acontecer o pós-moderno no Espiritismo senão pela contraposição de idéias — que precipitarão, então, a composição de um momento novo. “A verdade é filha da discussão, não da simpatia”, disse Bachelard. Faça-se, pois, a discussão; ponha-se opinião, contraponha-se outra opinião; componha-se uma opinião nova.

Todavia, o novo — a emergência das idéias novas, oxigenadoras do sistema social — há de ser construtivo, há de determinar avanços no Espiritismo. E o estado perplexo e estupefato, que acima anunciamos, se deve a certas correntes de pensamento dentro do Espiritismo, que afastam o seu momento religioso, buscando tão somente a prática de um Espiritismo só científico ou só filosófico — ou somente ambos. Chega-se ao descuido de serem trabalhadas frases de Kardec — que supostamente ele as teria escrito, eis que nem o desconto da tradução foi feito —, onde ele teria excluído o Espiritismo Religião.

A interpretação é, em tese, válida como expressão de pensamento livre. E é também democrático conviver-se com ela. Mas entre isso e sua aceitação há quilômetros de distância. Preparem-se para as primeiras pedras (impolutas ou não).

Em primeiro lugar, contrapomos um elemento da própria obra kadercista: O Evangelho segundo o Espiritismo. É, no mínimo, difícil, aceitar a hipótese de que kardec teria excluído a Religião do Espiritismo — ou mesmo que isso fora intenção dos espíritos orientadores do trabalho —, e, ao mesmo tempo, ter editado esse livro.

Aos afoitos, que confundem Religião com misticismo, pedimos atenção ao conceito. O que é Religião? É instrumento de evolução, assim como a ciência e a filosofia. Porém, cada um desses instrumentos desempenha seu papel junto à humanidade, não excluindo os demais, mas somando-se a eles. O primeiro momento do homem, após atingir a consciência de si mesmo, foi um momento de filosofia: Quem sou eu? De onde vim? Pra onde vou? O que é o mundo? O que é vida? O que é morte?

Gradualmente, as indagações filosóficas deram lugar à experimentação nos fenômenos, em busca de comprovação e certeza. O fenômeno foi bem observado, lançaram-se hipóteses quanto a eventuais leis que o regessem; experimentaram e concluíram leis naturais. Eis a ciência, explicando racionalmente quase todo o fenômeno existencial humano. Quase? Sim, quase. Mesmo atualmente a ciência se defronta com indagações até agora impossíveis de reprodução em laboratório. Ainda não se criou a vida nos tubos de ensaio — nem se contornou a morte! A origem do Universo ainda é o hipotético “Big Bang” (Grande Explosão).

Basta a filosofia continuar as suas indagações e a ciência logo se vê em apuros. Não obstante, a vida é — existe! A morte é — o desencarne existe! Nem a ciência, nem a filosofia explicam. Apenas propõem respostas hipotéticas. Efetivamente, Deus está nos tubos de ensaio, mas não se restringe a eles. Nós estamos em Deus e Deus está em nós — nas palavras do próprio Joshua.

A filosofia indaga o cosmo; a ciência busca sua resposta, sua explicação da experiência cósmica. Aí, disse Einstein: “Como pode a experiência cósmica ser comunicada a outra pessoa, quando não suscita nenhuma noção definida de Deus e lhe falta qualquer teologia? (...) nesta era de materialismo em que vivemos, os cientistas sérios são unicamente os homens profundamente religiosos (...) o sentimento religioso assume a forma de um arroubo de estupefação, à vista da harmonia da lei universal, que revela uma inteligência de tamanha superioridade que, em face dela, todo o raciocínio sistemático e todas as atividade do homem não passam de um reflexo extremamente insignificante...” (do livro “Mein Weltbild”, in Einstein, o enigma do universo, de Huberto Rodhen, p. 210-213).

Como pretende o Espiritismo educar integralmente o ser humano, sem auxiliá-lo a se posicionar criticamente ante Deus e seus atributos? Ora, esse é o papel a ser desempenhado pela Religião.

Mas falamos, no início, no Evangelho segundo o Espiritismo. É doutrinário que o Espiritismo é cristão, essencialmente cristão. Portanto, esse Evangelho, essa mensagem vivenciada por Jesus foi justamente um esforço para que as pessoas fizessem essa ponte, essa ligação, com o Criador? O que há de misticismo nisso?

O Evangelho é a chave, o canal, para que o homem perceba que Deus dentro de si, e a ele dentro de Deus; é o método para que haja essa sintonia. Daí o Espiritismo vai mais longe. Ultrapassa, como Religião, o mero re-ligar — ele busca a identidade com Deus, busca essa sintonia com as leis do universo.

O espírita é, por excelência (ou deve ser), um evangelista dessa nova ordem existencial. E o Espiritismo como Religião propõe a grande síntese humana: que os homens se identifiquem consigo mesmo, com os outros e com Deus. Sem rituais, sem cerimônias, mas com absoluta consciência crítica, com fé racional. Essa a receita para se alcançar a moral do mundo dos espíritos.

O resto é preconceito estreito — o novo  deve possibilitar da uniformidade do Espiritismo em torno da integralidade de seus três momentos: Filosofia, Ciência e Religião.

Ano III - Número 5     Junho 1987