Outubro - 1992
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Espiritismo & Produção cultural O ex-beatle Paul McCartney, ao atingir o décimo-nono lugar no ranking das maiores fortunas britânicas, resolveu doar 1,5 milhão de libras (U$ 2,7 milhões) para a construção do Instituto Liverpool de Artes Teatrais. Seu propósito é fazer a melhor escola do gênero do mundo.
No caso, trata-se de um milionário artista - ou de um artista milionário - que está investindo em produção cultural. Porque sabe, evidentemente, a significação da arte para o ser humano. Porém, o fato serve de ensejo a uma reflexão maior dentro da relação riqueza/cultura.
A Doutrina dos Espíritos vem, desde seu advento, propugnando pelo chamado "mundo novo", habitado por um "novo homem". Um processo moralmente revolucionário, onde o homem, autoconhecendo-se, alteraria integralmente a escala de valores vigentes, mudaria estruturas, enfim, construiria um contexto novo para as relações humanas.
Claro, o embasamento dessa proposta vem na esteira de uma mensagem espiritual, tomada código doutrinário, nos vieses da ciência, da filosofia e da religião. Mas é importante notar que esse código doutrinário não nasceu fechado, pronto e acabado. Ao contrário, já começou autoproclamando-se evoluente no tempo e no espaço, no "continuum" cultural. Portanto, deu os ganchos para não se isolar do resto do mundo - mostrou a necessidade vital de se cruzar com outros códigos da cultura humana. Exatamente porque é desse encontro - entre o poli-sistema espiritual e material - que se compõe a significação da mensagem.
Pois bem. Partindo-se daí, tem-se que é impossível um "fazer" espírita encerrado na leitura, e releitura, da codificação seca. Descamba-se facilmente para a imposição gramatical dos "capítulos versículos", tão ao gosto das doutrinas dogmáticas. Assim, a melhor leitura é aquela que se associa com a emergência cultural do momento presente, o que garante a atualização da linguagem - consequentemente, a comunicação.
Sendo o homem um ser plural, a abordagem espírita há de ser, igualmente, plural. E como essa pluralidade é forjada no "continuum" cultural, é nesse "continuum" a sintonia do Espiritismo. Dessa maneira, a possibilidade de um "homem novo", construtor do "mundo novo", vem não com a internalização, pura e simples, dos referenciais doutrinários - mas também com a internalização do contexto cultural. Ou seja, o homem para ser "novo" precisa ter acesso às fontes culturais da sua localidade, da sua época. Necessita estar sensibilizado para a linguagem do teatro, do cinema, da televisão, da poesia, da literatura, da música, das artes plásticas. Em suma: precisa aprender a ler, a compreender, a expressão humana em sua totalidade. Eis o interesse do Espiritismo -, e, por logística, do centro espírita - na produção cultural.
O centro espírita deve agenciar a cultura na medida que agencia o acesso à Doutrina. Porque o "homem novo" precisa saber viver o seu próprio tempo, exercitar o seu livre-arbítrio, tomar as rédeas do seu processo histórico pessoal. Mas isso só é possível aliado ao conhecimento. E o conhecimento só é possível através da leitura consciente do mundo, da expressões humanas - quer dizer, através da experiência cultural.
No Brasil, a crise antes de ser econômica é moral; e antes de ser moral, é cultural. A violência, a indiferença, a cidadania desprezada, a denotação da família, entre outros problemas sociais, se devem principalmente à má-distribuição das oportunidade de o homem ser feliz. E o homem não é feliz somente quando tem dinheiro (se fosse assim, os ricos nunca teriam problemas).
Sua felicidade prende-se muito mais à consciência que ele tem de si mesmo, de quem é e do que quer fazer. A seguir, ele se sente atuante, participante, ator, do "continuum" cultural. Seu diálogo com o mundo ganha profundidade. Porque ninguém vive sem a tensão de alguma problemática. Mal se consegue resolver uma crise, surge outra. Porém, a cultura traduz o esforço da resolução. Faz uma pedagogia sutil, de emoção, onde a forma pode modular o conteúdo - fazendo com que o usuário da cultura amadureça sua paz, sua harmonia interior.
Nessa razão, o centro espírita precisa ser espaço cultural. Um espaço cultural não restrito ao prédio (que, por hipótese, pode servir como galeria de arte), mas que avance e eduque o homem a ver, ler e pensar sobre a cultura. Que demonstre ser cada pessoa um ator e um portador da cultura. Cultura afirmada e convalidada na palavra, no gesto, no pensamento - de uma simples festa popular até o esplendor de uma peça teatral.
Como Paul McCartney, os homens ricos - artistas ou não - devem se dar conta do seu débito para com a cultura. Porque quem enriquece, enriquece também à custa da cultura - e a cultura é um trabalho coletivo. Devem os ricos se sensibilizar para a importância de se investir também nessa área - o melhor meio de contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sociedade.
Documento SBEE
Ano VII - Número 15
Outubro 1992
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